terça-feira, 1 de abril de 2008

Segregação é solução?

Por Gabriel Brito

Eis então que São Paulo, a locomotiva do país (cada vez mais fora dos trilhos), inova com mais uma grande idéia para esvaziar o espetáculo: o cadastramento de torcedores organizados. Para ser breve, a idéia consiste em fichar cada integrante desses grupos e ter uma base de dados. Caso existam tumultos em algum jogo, aqueles que forem detidos serão averiguados e, se forem um dos cadastrados, sua punição será maior. Além do mais, haverá nos estádios (não planejados para isso, é claro) um setor específico para eles. E ninguém mais. Pronto, está criado o apartheid do futebol.

Torcedor organizado vai para um lado, torcedor dito 'comum' para outro. E há ainda o setor família, cantinho obscuro que cada time tem que arrumar em seu campo para contemplar essa idéia da federação paulista, em que um pai pode comprar ingressos para toda a família a um preço mais baixo (com limite de idade para os filhos, pois acima de 12 anos não é mais família) e tem um setor exclusivo para ver o jogo. Quer dizer, é na base da generalização que polícia, federação e poder público pensam estar resolvendo alguma coisa. E ainda querem criar área de fumantes no Pacaembu!

Organizados (leia-se marginal para as autoridades) vão para um canto. Família para outro. Como se todos os tipos de torcedores, digo em relação aos perfis, não pudessem conviver em paz por todo o estádio. E estou falando de torcedores do mesmo time! Grande idéia cadastrar os torcedores. Mas parece aquilo que Mané Garrincha respondeu a Feola na Copa de 58, ao receber instruções sobre como deveria driblar os adversários e cruzar: "Você já combinou com o adversário?". É a mesma coisa agora. Querem que o torcedor brigão entregue todos os seus dados antes mesmo de causar qualquer problema. Por acaso algum ladrão que planeja roubar um banco vai se fichar na polícia um dia antes?

Já passou mais de um ano desde a implantação de mais esse paliativo inútil e não se cadastraram nem 10% do contingente imaginado, pois, claro, ninguém quer ser fichado antecipadamente sem ter feito nada. Menos ainda se pretender. O único resultado visual disso é que agora nós, torcedores (alguma dessas autoridades ainda vai publicar um tratado que defina de vez o que é de fato o 'família', o 'comum', o 'organizado'...), somos obrigados a ver setores completamente esvaziados, reservado aos gatos-pingados cadastrados, enquanto que, nos outros, espreme-se o resto da galera que ainda insiste em sair de casa para ver futebol em São Paulo. Tirei fotos em diversos jogos desse ano para comprovar.

Juntam-se às proibições destacadas anteriormente a segregação do público e, a partir daí, chegamos aos três jogos de 2006 entre Corinthians x Palmeiras com média inferior a 20 mil, ao Sansão deste ano com 17 mil no mesmo dia em que o Fla-Flu amistoso levou 41 mil ao Maraca, dentre outras marcas vergonhosas para a história dos clubes e do futebol paulista.

Quem freqüenta estádio e acompanha o mundo da arquibancada sabe: o espetáculo futebolístico em São Paulo é clamorosamente mais pobre do que em qualquer outro estado de razoável expressão no cenário nacional. Ceará e Fortaleza têm um espetáculo visual e popular muito acima de um Corinthians e São Paulo, por exemplo.

Vai ficar assim mesmo?

Depois os paulistas levam a má-fama de serem menos devotos ao futebol do que os torcedores de outras praças.

O pior de tudo é ver todos se acostumarem com tal estado de coisas. A imprensa não faz queixas e críticas às patéticas marcas de público dos clássicos e do próprio campeonato. Mas não perde uma chance de publicar e inflar uma briguinha a mais. E só ouve opiniões oficiais ainda por cima.

Até quando o futebol paulista vai ser vítima de interesses políticos e pessoais, de quem usa a questão da violência para se promover? O que era Fernando Capez antes e depois desse famigerado boom de estupidez? E Major Marinho? Algumas máscaras o tempo trata de tirar, mas mesmo assim se paga um preço muito alto pelo legado que esses pára-quedistas deixam ao futebol.

Quem gosta e ama o jogo quer a festa de volta, os rojões, as milhares de bandeiras empunhadas e não só as de grupos, a chuva de papel picado quando o time entra em campo e por aí afora. É isso que conquistou cada um dos apaixonados por esse jogo, não as intermináveis proibições, maus tratos, preços elevados de ingresso, separações e arquibancadas às moscas. Alguém salve o futebol paulista dos medíocres e acabe com o modelo de 'estádio-prisão' implantado pelos 'sábios da pacificação'.

Publicado no Correio da Cidadania

terça-feira, 25 de março de 2008

Futebol, violência e as enganações de sempre

Por Gabriel Brito

Não é de hoje que se tenta tomar medidas de combate à violência no futebol. Desde a eclosão da onda de brigas de torcida, dentro e fora dos estádios, em meados dos anos 90, seguiram-se tentativas de controlar e eliminar tais barbáries do cenário esportivo nacional.

Todas, absolutamente todas, fracassaram inapelavelmente. A mídia se fartou de explorar o tema, promotores e policiais ficaram famosos por aparecerem nos meios de comunicação listando providências que seriam tomadas e trariam de volta aos campos a tão desejada paz.

Não vamos aqui entrar nos detalhes das propostas anti-violência feitas nesses anos todos. Mas podemos resumir: nenhuma até agora mudou de verdade a realidade nos estádios. No máximo transferiram os palcos de guerra para localidades mais afastadas, onde exercer qualquer controle se torna ainda mais difícil. Ah, também serviram para alavancar a carreira pública de algumas figuras que se notabilizaram por (supostamente) combater esse mal, empreitada na qual falharam estrepitosamente até hoje.

Nos últimos tempos, bem recentes, criou-se uma onda de retorno às arquibancadas, crescimento de público e até renovação nas torcidas. A subida na média de público do Brasileiro 2007 atesta isso e o espetáculo promovido por algumas parcialidades não era visto há um bom tempo por aqui também.

Seria o retorno da festa ao futebol, do futebol à festa, dois parceiros que deveriam caminhar de mãos dadas sempre? Não é bem assim. Na maioria dos estados, a polícia e federação local, dentre outros partícipes, já se deram conta de que a festa deve mesmo se manter ligada ao futebol, pois faz parte da essência do espetáculo, além de ser muito mais atraente para quem vê, seja in loco ou da poltrona. E também deveria ter a mesma consideração por parte da TV, que pode lucrar mais vendendo um produto que é sucesso de público do que o contrário.

No entanto, ainda há um lugar onde predominam o clima de tensão, amargura e repressão: São Paulo. Não é de surpreender, pois se trata do estado tradicionalmente mais conservador e reacionário do país. O que mais se mete a pensar ser primeiro mundo também, apesar de conceder à grande maioria de seus cidadãos uma vida de 3º, 4º mundo.

Na terra da garoa bandeira não entra. Faixa e instrumento musical só se for de organizada, porque torcedor comum aqui não pode se manifestar, não pode nada, só aquele que a própria polícia acusa ser causador de problema, ou seja, o organizado. Jornal? Nem pensar, pois, na visão de quem faz futebol em São Paulo, trata-se de uma arma com potencial de destruição em massa. Papel picado? O mesmo problema do jornal. Faixas e cartazes se manifestando contra algum dirigente? Esqueça, pois liberdade de expressão parece ser um direito não muito bem esclarecido por aqui.

Enquanto isso, o que vemos nos outros estados é o oposto total. Faixas, fogos, bandeiras e toda pirotecnia que se imagine são permitidas aos torcedores que querem levar mais do que suas vozes como forma de apoio e celebração ao time que amam. Claro, talvez tenham percebido nessas terras que o problema não está nos objetos, mas sim, e obviamente, nas pessoas.

Não precisam criar mais leis, projetos, comissões de paz. Já existe amparo legal (sempre existiu na verdade) para combater crimes, brigas e quaisquer delitos ligados ao futebol. Aliás, o esporte não está à margem da sociedade em termos de responsabilidades e de leis. Então, o sujeito que comete uma infração no estádio pode ser punido da mesma forma que aquele que o faz no cinema, no parque, na rua, em qualquer lugar.

Mas nossos 'visionários' da organização do espetáculo pensam diferente. São escravos de novas leis, resoluções, grupos de discussão, comissões e o escambau, só para dar satisfação à sociedade daquilo que não precisa mais ser discutido, somente aplicado.

Publicado no site do Correio da Cidadania.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Motivações*

Por Leandro Iamin

Penúltima rodada do Brasileirão de 2007. Porto Alegre. Após uma falha ao anular gol legítimo do Palmeiras, o Inter-RS vai para o vestiário vencendo por 1 a 0, em gol possivelmente faltoso de Iarley.

Algo aconteceu nos vestiários aquele dia, algum bacumbufo envolvendo diretores e o trio de arbitragem, mas sabe-se que, de qualquer forma, o Palmeiras voltou para o segundo tempo derrotado, tímido como quem broxou na frente da namorada.

A exemplo, aliás, do que acontecera em Belo Horizonte, rodadas antes. Por conta de erros do árbitro, expulsando Pierre e ignorando penalti claro, o alviverde voltou tão sem gás que tomou de 5x0.

Naquele dia, em Porto Alegre, a derrota foi "só" por 2x1. Um pouco mais tarde, no horário das 18h10, o Santos de Luxemburgo virava um jogo contra o Paraná Clube. Estava 2 a 0 para os paranistas, e nos momentos finais, deu-se a virada.

Penso, e não há como não pensar, em como Caio Jr. reagiu nos vestiários do Beira-Rio e do Mineirão. De certo, deu razão ao time, colocou na cabeça dos atletas que haviam sido vítimas, e foi assim que o verdão atuou: achando-se, burramente, protegido das críticas, dispensados da luta, por serem vítimas do árbitro.

Luxemburgo faz outra linha. Paternalismo não é com ele. Nesse domingo, em Bragança, ele elogiou o árbitro para a TV logo ao fim do primeiro tempo. De certo que não aliviou seus comandados, como, de certo, no dia-a-dia, exercita a competitividade e o orgulho do plantel.

O resultado foi uma virada que fez o palmeirense babar. Inimaginável que isso acontecesse pouco tempo atrás. E podemos especular sobre os estilos e as maneiras de se motivar um grupo de futebol.

Caio Jr., que motivou até um Cianorte contra um Corinthians poderoso, mas sucumbiu no fim, pecaria em mais essa? Luxemburgo, das viradas de fôlego, como a série do Corinthians no Paulista de 2001, é o maior responsável pelo espírito de luta do Periquito?

Pra mim, sim e sim.

* Texto publicado no Blog do jornalista Mauro Beting.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Tristeza e melancolia paulista

Por Mauro Kinjo

A festa já não é mais a mesma. Isso é evidente. Os anos de glória ficaram no passado, e é cada vez mais difícil de imaginar que os estádios paulistas voltem a ser o que eram. Querem globalizar o nosso futebol, fazer de conta que vivemos na Europa e que nossa cultura não vale um tostão.

Como grande apreciador deste esporte, fico feliz por ver o futebol do Rio de Janeiro se reerguer. Jogadores interessantes, arquibancadas lotadas, menos dificuldade de aceitar o que somos e como reagimos às coisas. No entanto, é extremamente difícil de engolir que nós paulistas, que até pouco tempo atrás nos gabávamos de uma suposta superioridade futebolística, estamos fazendo uma festa bem menos colorida em nossos estádios que nossos vizinhos cariocas.

Uma das origens do problema é antiga e bem conhecida. Final da Supercopa de Futebol Júnior, 1995, jogo entre Palmeiras e São Paulo. Após a batalha envolvendo os torcedores das duas equipes, transmitida ao vivo pela TV Globo, a Federão Paulista e a Polícia Militar de São Paulo começaram a tomar as rédeas do espetáculo e a transformá-lo em um circo à sua imagem.

Hoje, a polícia não deixa os times de menor expressão mandarem as partidas em suas acanhadas canchas, mas permite que times grandes realizem jogos em estádios igualmente pequenos. A PM deveria estar para proteger e manter a ordem. Aonde quer que seja. E quando ela não garante a segurança do público presente, assina o próprio atestado de incompetência absoluta.

Até quando teremos que aturar incompetentes assumidos no poder?

A Federação por sua vez, proíbe a entrada de faixas, bandeiras, instrumentos musicais e até guardas-chuva e papel picado. E o pior, com o argumento de que estes materiais podem causar atos violentos nos estádios, ou nas suas cercanias.

Na partida entre Nacional de Medellín e São Paulo, mais um chilique de Galvão Bueno e seus comparsas em relação ao muro de policiais que se formam quando um jogador se aproxima para cobrar o escanteio. "É uma vergonha. A Sul-americana precisa acabar com isso!", esbravejava o veterano narrador. Minha dúvida é: será tão difícil entender que o problema da violência é uma questão social, e não futebolística?

Enquanto 'nós' paulistas olhamos para o futebol do primeiro mundo e sentimos inveja, os cariocas e os residentes de outros estados continuam festejando a forma brasileira de ser e de torcer, de quarta e domingo, sem interferências de quem nunca pisou em uma arquibancada.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Ronaldo, meu filho

Por Leandro Iamin

Brasileiro só é solidário no câncer. Na saúde, todo paternalismo é falso e o apoio real não há. O sucesso é tratado e rebatido com chacota e despeito.
Primeiro parágrafo de um revoltado? Sim. De um Ronaldista revoltado.
Hoje eu tenho um sentimento pela Inter de Milão, que beira o amor. Culpa de Ronaldo. Hoje eu tenho 5 estrelas na minha camisa amarelinha. Culpa do Ronaldo. Hoje eu estou transtornado, por culpa do Ronaldo.
Em 1994, ele tinha 17 anos. Ganhou uma Copa, estava com o grupo do tetra. Eu, criança, fiz as contas, em casa. "Se ele pode, eu também posso". Com 17 anos, eu queria estar na seleção!
Fiz 17 anos em 2002. Eu não estava na seleção. O Ronaldo estava.
Ele chutou a Inter? Sem problema, sigo amando Ronaldo, sigo apaixonado pela Inter. Ele foi pro Milan? Ok. Deixa o homem trabalhar.
Deixa o homem namorar! Deixem ele jogar bola, fazer propaganda, deixem! Não deixaram.
Ele estava acima do peso em 2006? Sim, e você não o convocaria? Em 2002, também não? E em 1998, aquela convulsão está mal explicada? Mal explicado é ter o Zagallo de técnico, amigão.
Eis que agora, ele está de novo no chão. Não precisa fazer inferno com a namorada, ou com o peso, ou com a noitada, ou com a falta de gols. Há um fato de verdade. Os tambores bateram no colo do Fenômeno, martelaram seu joelho.
Agora, reprisa-se os gols, o sorriso, as obras de arte do nosso atacante. Cruel, mórbido. "Será que ele volta?". Urubus.
Ronaldo é o primeiro filho desse futebol moderno. Essa coisa do jogador valer dezena de milhões, ser super-forte, fazer merchandising de tudo, ter dois empresários... ele foi o primeiro rato de laboratório na mão desse meio habitado por ratos de esgoto.
Ele paga o preço por isso. "É um problema congênito no joelho"? "É culpa da preparação física lá em 1995"? Agora, é tudo assunto furado. Na hora de fazer piada sobre a gordura dele, ninguém perguntou se era congênito, ou se era culpa do preparo físico.
Quando ele precisou de paz, ninguém deu. Quando ele precisou de alguma ajuda, ainda que em namoradas, foi só bomba. Alguém aí acha que ele precisa, agora, do apoio dos brasileiros?
Na hora de comemorar as alegrias que ele deu ao Brasil, ninguém lembrou-se das piadas a-lá "Casseta & Planeta" que faziam, à náusea, com ele. Não precisam fingir pena dele.
Se ele se importasse com esse apoio inútil, sequer tinha levantado da cama em 2002. Sequer tinha se recuperado depois de 98. agora Inês é morta, aviso os demagôgos.
Ronaldo, ao contrário, é imortal. Como Di Stefano, Puskas, Cruyff, Eusébio. Só que um passo acima.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

O MUNDO ESTRANHO DO FUTEBOL PIAUIENSE

por Mauro Kinjo

O Campeonato Piauiense de futebol não é um dos mais atrativos do Brasil. Entretanto, vem se tornando um dos mais pitorescos. Só na edição do ano passado, dois fatos chamaram a atenção dos torcedores presentes aos canchas de jogo. O primeiro foi a expulsão de um maqueiro que entrou em campo fumando. Por último, foi a vez de um jogador trocar de roupa, e ficar nu, às margens do campo.
O caso ocorreu durante a segunda partida da semifinal entre Parnayba e 4 de Julho, válida pelo segundo turno do torneio. Aos 19 minutos do primeiro tempo, o lateral-direito Bebeto, do 4 de Julho, foi advertido pelo árbitro Afonso Amorim por estar usando um calção térmico de cor diferente (branco) à do uniforme do clube (vermelho). Ele pediu para que o atleta deixasse o gramado e o trocasse.
"Antes de começar o jogo eu já tinha percebido que ele estava com o uniforme fora dos padrões legais, então pedi para que consertasse", disse Afonso, salientando que o atleta o enganou e continuou em campo com o calção térmico.
- Então fui obrigado a solicitar que saísse de campo para trocá-lo ou tirá-lo.
Foi então que o atleta levou a ordem do árbitro da partida ao pé da letra. Na linha de fundo, próximo à meta de seu gol, Bebeto baixou o calção do uniforme, tirou o short térmico e, como estava sem cueca, ficou nu e chamou a atenção de todo mundo, principalmente da torcida, que não gostou muito do que viu.
"Foi então que percebi e imediatamente o expulsei quando ele retornou ao gramado. Em 20 anos de arbitragem só cheguei a presenciar tal fato em jogos do amador, nunca do profissional" - detalhou Amorim.
O lateral Bebeto saiu de campo debaixo de sorrisos e insultos dos quase 2,2 mil torcedores que estavam no Estádio Mão Santa, na cidade de Parnaíba, litoral do Piauí. Ele não quis falar com a imprensa na descida para o vestiário. Na súmula da partida, entregue na Federação de Futebol do Piauí, o árbitro explicou a expulsão como atitude antidesportiva do atleta.
Já a partida, terminou 8 a 1 para o Parnayba, atual bicampeão piauiense de futebol. Destaque para o atacante Cristóvão, que marcou a metade dos gols.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

AQUECIMENTO PRECIPITADO

Por Gabriel Brito

É com grande expectativa que os torcedores aguardam pelo retorno do futebol em suas agendas. Não é para menos. Quarenta e cinco dias sem jogos nos levam mesmo a fortes crises de abstinência e fazem-nos contar nos dedos os minutos restantes para o reinício de tudo. Porém, não adianta, nem para torcida nem para os clubes, que as equipes voltem a campo antes de completar uma pré-temporada decente, capaz de colocar o time em ponto de bala desde a estréia até as longínquas rodadas finais do Brasileirão. É pedir para antecipar as frustrações.
Se na Europa, onde se joga entre 50 e 65 partidas por temporada, os clubes têm no mínimo um mês inteiro só para os trabalhos preparatórios (o que inclusive justifica a menor carga de treinos que existe por lá durante o ano), por que no Brasil, onde pode-se alcançar 80 partidas de janeiro a dezembro, se dão apenas duas semanas de preparação?
O pior de tudo é que as conseqüências já são conhecidas: má qualidade dos jogos iniciais, times se arrumando no meio do campeonato, jogadores estreando na mesma situação, lesões em atletas ainda despreparados para a exigência física dos jogos e por aí afora.
Nessa situação, quem começa mal usa (com razão) a falta de tempo como justificativa dos maus resultados e apresentações. No entanto, com a cobrança de mídia e torcida, as diretorias não agüentam a pressão e para satisfazer as cornetas de plantão, demitem o treinador e jogam fora o pouco que já tinha sido desenvolvido. Chega o novo professor, que indica novos jogadores e comissão técnica e a equipe precisa se reorganizar outra vez. Nisso, o rival melhor armado já está lá na frente da tabela, a paciência da torcida encurta e aquele bla-bla-bla de que as equipes precisam de organização e respaldo para trabalhar é esquecido. Todos querem resultado e pronto.
É essa uma das formas de funcionamento da máquina de moer times, jogadores e técnicos que opera no futebol brasileiro. É estranho, pois em tese ninguém sai ganhando com isso, certo?
Errado. Para federações estaduais e TV, o importante é o circo voltar logo à ativa e que recomece o quanto antes a maratona de jogos. Entendamos: as federações, em geral feudos de cartolas que querem mamar no futebol até a última gota de leite, querem mesmo é inchar os estaduais, para assim vendê-los por algumas moedas a mais e reafirmar seu poder no quadro do futebol nacional. Se isso prejudica o restante da temporada não parece interessar à CBF, pois devemos lembrar que são os presidentes de cada federação local que (re)elegem o mandatário da confederação.
Em relação à televisão, o assunto é outro e já conhecido: a velha (e medíocre) guerra de audiência. Afinal, quem tem os direitos dos jogos não pode ficar dois meses levando pau e perdendo público no horário nobre da quarta-feira. Posto tudo isso na mesa, a conclusão fica fácil. Aqueles que não são parte do espetáculo, mas pagam por ele, impõem seus interesses e os que são o próprio espetáculo apenas obedecem. É como se a Globo colocasse no ar os primeiros capítulos de suas custosas novelas da vida irreal sem que os atores tenham decorado os textos por completo, coisa que obviamente não acontece.
A saída é uma só: ou os clubes e jogadores começam a entender sua verdadeira importância e exigem direitos e condições ideais de trabalho, ou tudo continuará na mesma, pois quem se beneficia desse cenário é que não vai querer mudá-lo.