segunda-feira, 1 de junho de 2009

O Rio de Janeiro continua lindo

Por Gabriel Brito

Para quem pensava que aquele Rio de Janeiro da bossa nova, dos bondinhos, da felicidade do povo local e da máxima expressão de nossa brasilidade tinha ficado na nostalgia, o Comitê Olímpico Brasileiro tem uma boa nova: ele ainda existe, e será ainda mais materializado quando a Cidade Maravilhosa, cada vez mais, receber de braços abertos os Jogos Olímpicos de 2016.

Se alguém pensa se tratar de um delírio, nossas autoridades esportivas podem com enorme prazer comunicar que aquela metrópole dos cartões postais está mais vívida do que nunca. Caso ande desinformado dos acontecimentos recentes, basta assistir ao breve filme panorâmico da cidade mostrado aos inspetores do Comitê Olímpico Internacional (COI), muito revelador até mesmo para nós, habitantes nativos incólumes a tamanha revolução.

Na película, cuja estética e cenografia são de fazer inveja até naquele pessoal que foi se reunir em Cannes, o Rio de Janeiro erradicou seu déficit habitacional, ou seja, não há mais sem tetos; o trânsito flui tão naturalmente como sangue em veias; a moradia em favelas não se faz mais necessária, o que extinguiu os morros da paisagem da cidade; e, claro, os servidores públicos são a fina flor da cordialidade humana.

Tudo isso sem precisar de mais de 5 minutos para escancarar aos surpreendidos – e, portanto, também desinformados - enviados internacionais os até então desconhecidos avanços da sociedade brasileira.

Não vamos nem comentar o funcionamento dos serviços essenciais da cidade, pois já são assuntos superados que se encontrarão em nível indiscutivelmente superlativo daqui a sete anos. Tampouco falemos do Rio de Janeiro que não foi nos Jogos Pan-americanos, quando a limpeza da Lagoa Rodrigo de Freitas e a expansão do metrô, entre outros legados, foram deixadas para uma próxima.

Todo o cenário descrito acima seria lindo, não fosse falso. Foi apenas o famoso trabalho de fachada, tradicionalíssimo por aqui, das autoridades locais, que deram uma pequena ‘higienizada’ no atual visual da cidade. Também foram estratégicos, como confirmou o prefeito Eduardo Paes, ao escolher um feriado, livre de trânsito, para realizar o passeio avaliativo dos membros do COI. "Temos de dar um jeitinho para conseguir trazer as Olimpíadas".

De resto, tudo certo

Se por um lado já foi possível solucionar as principais mazelas sociais cariocas, por outro há alguns pontos que permanecem obscuros para aqueles que insistem em não se contentar com a vinda de grandes eventos - vistos e curtidos por quase todos no mundo, até os críticos – pelas mãos exatamente do que há de pior em nossa sociedade. Gente que faz sua incompetência, entre outros péssimos costumes, arruinar completamente os setores nos quais se envolvem, mas que ainda assim recebem a graça divina de serem os patronos e condutores de megafestividades mundiais.

Por exemplo, segue desconhecida do público a prestação de contas do Pan-americano de 2007, cuja devassa foi prometida pelo Tribunal de Contas da União para, no máximo, o meio do ano passado. Mesmo diante de todas as evidências de descalabro gerencial, ainda não há culpados, muito menos punidos pela histórica sangria que o esporte causou aos cofres públicos.

E o melhor: pelo critério das instalações esportivas da cidade, "Madri está à frente", disse Nawal El Moutawakel, marroquina que preside a comissão do COI. Nosso Pan foi em 2007 e já estamos defasados, portanto. Talvez pelo fato de só aqui ter-se construído um complexo aquático para 6 mil pessoas e se descoberto, um ano e meio depois, que a capacidade mínima em Olimpíadas é de 12 mil. Pequeno erro de cálculo – coisa de país formado por 75% de analfabetos funcionais, incapazes de ler e interpretar, somar e dividir, então, espero que compreendam. Tóquio, só para dar um exemplo, pretende utilizar grande parte das instalações até hoje conservadas da Olimpíada de 1964!

Quanto aos custos da Olimpíada, até pelo recente retrospecto, também podemos nos manter tranqüilos. O Ministério do Esporte, cujo orçamento de 2009 foi reduzido em cerca de 85% por conta da crise, já gastou a módica cifra de 50 milhões de reais em apenas seis consultorias, sendo cinco não licitadas e uma não esclarecida, conforme informou a Folha de S. Paulo. Só para efeito de comparação, não há nenhum esporte no país que receba algo ao menos próximo disso de fonte diretamente oficial.

Outro a nos tranqüilizar, o que por sinal tem sido sua especialidade, foi o presidente Lula, ao afirmar que o orçamento dos jogos deve ficar na casa dos 30 bilhões de reais. Levando em conta que o Pan foi orçado em 300 milhões e saiu para 4 bilhões, imaginem se nossa ineficácia de planejamento contábil mantiver o padrão?

O COB, por sua vez, mostra o quão amigo é do esporte: faz lobby na Câmara para evitar a obrigatoriedade de repassar 30% de seu orçamento (2% da arrecadação bruta de todas as loterias federais, graninha pouca) diretamente aos clubes. Pois é, aos clubes, justamente os que promovem a prática do esporte e revelam os atletas. A proposta de alteração na Lei Pelé, que versa sobre o assunto, já foi aprovada. Restou a Nuzman, presidente do COB, enfiar uma emenda junto. Difícil pensar por que o COB, uma entidade administrativa basicamente, precisa mais de dinheiro que as próprias entidades da prática esportiva.

De toda forma, para usar um termo muito em voga no Rio, cedo ou tarde haverá o choque, no caso, de realidade. "Defender um projeto virtual é meio complicado hoje em dia", disse Mercedes Coghen, também à Folha. É certo que a dirigente defende seu peixe, mas o fato é que Madri já tem uma estrutura infinitamente mais avançada para receber os jogos no ano que vem, fosse necessário.

"Tais negócios são uma obsessão para o governo e a prefeitura, que sempre estão em viagem buscando grandes investimentos. Enquanto isso, pau nos pobres aqui", disse a socióloga Vera Malaguti ao Correio da Cidadania, em entrevista recente. Pois é, pelo bem do esporte brasileiro, que venha logo o dia 2 de outubro, quando se decidirá, enfim, a sede dos jogos de 2016. Com Madri, Tóquio e Chicago na parada, creio que teremos de nos preocupar apenas com a farra da Copa de 2014, essa sim já inevitável.

Também publicado no Correio da Cidadania.

sábado, 18 de abril de 2009

O novo 'poser' da bola

Por Gabriel Brito

O futebol, e sua violência, estão prestando mais um serviço como palanque para alavancagem de carreiras: graças a ele, o promotor de justiça Paulo Castilho não sai mais das manchetes, mesmo sem ter qualquer ligação prática ou passada com o ramo. E seu pavonismo, involuntária ou voluntariamente, é diariamente estimulado pela mídia, que agora publica até suas opiniões sobre o esquema da seleção, caso o dito cujo as tenha.

Responsável pela patética idéia de reduzir a 5% a carga de ingressos de visitante, piorando o cerco sofrido por essa minoria e acirrando o clima de bandos inimigos vigente no futebol paulista, é daqueles seres embebidos da crença de serem os salvadores dos ambientes em que adentram.

"No começo, as torcidas estranharam a pequena cota de ingressos para o visitante. Mas reduzimos ainda mais e reforçamos a segurança do setor. Eu sabia o que estava fazendo". Um disparate, mas se interpretada a fundo, a frase é muito reveladora da personalidade e mentalidade do promotor (e de todos que o bancam por trás). E reveladora de que tal sujeito é mais um que enganará a todos na luta que supostamente empreende pela paz no futebol.

Vamos tentar analisar a frase e suas entrelinhas. "No começo, as torcidas estranharam". Em primeiro lugar, as torcidas não estranharam nada, e sim detestaram, pois está se matando a cultura do clássico de duas torcidas, de forma desproporcional, com os visitantes sendo encurralados em número ínfimo. Em termos de espetáculo, uma queda brutal.

"Reduzimos ainda mais (a cota de ingressos para a visita) e reforçamos a segurança do setor". Nada mais paulista. Restrição, proibição, aumento da repressão, nervos à flor da pele para lidar com o público. Não somos a terra da lei anti-fumo, dos despejos dos pobres para recantos abandonados da periferia, do Psiu de sábado à noite, da ROTA, do povo chato e mal humorado, do céu cinzento e poluído? Portanto, normal que nossos parâmetros de convivência se guiem por aversão ao próximo, rixas, ódios, vedações.

"Eu sabia o que estava fazendo". Ah, é? Foram três clássicos sob tais orientações. Dois terminaram em pancadarias, somando dezenas de feridos, especialmente no famigerado São Paulo x Corinthians do Morumbi. Só o último (mesmos times, no Pacaembu) não registrou incidentes graves. Ou seja, o saldo é muito, mas muito, negativo. Fracasso total na verdade, pois ficou evidente que tal diminuição do público eleva os ânimos da parcela minoritária a níveis estelares, pois se sente acuada e vulnerável – a torcida do São Paulo precisou de uma escolta monumental para chegar ao estádio, parando Paulista, Consolação e o que mais estivesse em volta. Mesmo assim, o promotor se permitiu tal arrogância. Mas pelo menos revelou que as agressões, fraturas e acirramento de ânimos estavam no script.

No mais, Castilho agora está em todas. Vai a jogos da seleção, recepciona a delegação do Sport Recife em São Paulo, fala que prenderia Cristian pelo seu gesto obsceno na comemoração de um gol, assiste jogo da divisa de torcidas. Uma agenda agitadíssima. Pelo jeito, o MP o dispensou de todas as suas demais atribuições. E tudo sob o papinho de estar trabalhando pela paz, mas que é só a desculpa para circular permanentemente no tentador mundo da notoriedade pública e do trânsito nos corredores do poder no ramo. Como dito em outra coluna, já vimos o filme com Fernando Capez. E a resposta está no nosso nariz: São Paulo é a praça mais violenta do país nos espetáculos esportivos. E exatamente a que ‘revelou’ para o futebol a dupla citada.

Um amigo meu foi ao Rio e, não o primeiro, se disse encantando com o clima que se vive na cidade em torno de um jogo. A mídia, ao contrário da amargura paulistana, conclama o público a ir ao Maracanã. Os torcedores adversários se misturam no metrô, na ida e na volta; toma-se cerveja muito mais à vontade (pena que lá também entraram nessa de proibir dentro e vender a um palmo fora); leva-se toda sorte de instrumentos e adereços de festa. Resultado: públicos maiores e menos violência, pois seus causadores também se inibem em meio a um ambiente desfrutado pela população comum que apenas foi ao jogo.

São Paulo caminha há 15 anos na direção contrária, e no que continuar dependendo do promotor continuará, optando por um modelo de segurança que se referencia na violência, não no convívio. Entendo como uma derrota da sociedade, algo como ‘o medo venceu a esperança’. Como disse Mano Brown, que conhece cruamente a cabeça e o comportamento das classes populares, "você tira os instrumentos, a bandeira, a faixa, encurrala as pessoas num cantinho, proíbe cerveja e vende qualquer salgadinho por 4 reais, o que sobra? Violência, claro."

Enquanto não se buscarem vias construtivas, que incentivem a convivência mútua, livre, chegando mesmo a forçar que todos se misturem, só veremos mais vitórias da intolerância. Como também dito em uma coluna anterior, noves fora a tradição, um clássico paulista hoje fica muito abaixo como espetáculo do que qualquer outro pelo Brasil. Nisso, o Rio de Janeiro, e os outros estados, estão anos luz adiante dos paulistas, cujo estado (mais uma vez) mostra-se como a locomotiva (do atraso) nacional.

Figuras como essa de Castilho precisam ter vida curta no futebol. Roubam a cena, concentram a atenção de todos com novas idéias mágicas que não levam a nada, criam falsas esperanças e no final vê-se que todo o processo foi favorável somente a uma pessoa, que vocês já podem imaginar. As propostas do promotor são todas de linha conservadora, retrógrada, iguais as que vimos fracassar nesses anos todos. Não há porque dar ‘moral’ para que tal sujeito continue em sua falsa cruzada.

O fato de se meter na recepção da diretoria do Sport Recife, alegando cuidar da segurança dos pernambucanos apenas mostra o showzinho e a sede por notoriedade do promotor. Desde quando diretorias que se recepcionam em jantares formais e assistem o jogo de cabines privilegiadíssimas precisam disso? Sendo assim, proponho que nossas autoridades subam em ônibus e trens saídos da periferia (e passem um tempo por lá) a fim de averiguarem como anda a segurança do povão. Nesse caso, aplaudiria de pé tamanha ciosidade.

Castilho é mais um embuste midiático, símbolo de autoridades que não possuem respostas verdadeiras para essa cólera da violência no esporte e acham que tiram coelhos da cartola ao (re)aparecerem com suas novas e supostas soluções. Como uma vez disse a socióloga Vera Malaguti, "ficaremos a mercê dos deputados (ou outras autoridades, no caso) que também não estudam, não lêem e precisam aparecer no jornal com uma solução mágica". Pois, ‘the poser’ é assim. Que percebamos mais rápido, e não deixemos que se comprometam, negativamente, outros 15 anos.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Não se enganem: é só mais do mesmo

Por Gabriel Brito

A última coluna abordou os recentes problemas envolvendo torcedores (majoritariamente organizados) e policiais militares em espetáculos esportivos. Infelizmente, os acontecimentos mostraram que o tema está longe de sair da pauta dos noticiários futebolístico-policiais.

Na tarde do dia 22 de março, ao fim de Corinthians x Santos no Pacaembu, novamente a PM se enfrentou com uma torcida (a do peixe), por motivos que outra vez não ficaram esclarecidos. Enquanto isso, o governo começa a ensaiar entrar pra valer na questão e volta a atrair os olhares do público com (mais um) plano de combate à violência e outros males ludopédicos. Dentre eles causou rejeição imediata o cadastramento de torcedores, defendido pelo ministro Orlando Silva Jr., muito amigo dos cartolas, nem tanto do esporte.

O caso ocorrido na capital paulista (que, repito, é onde mais se aplica proibições de toda ordem e onde a violência mais grassa) é simbólico da nulidade de tal medida. A Federação Paulista já tinha se antecipado a essa genial idéia e promovido o cadastro de torcedores membros de organizadas. Serviria, vejam a inutilidade, para que seus membros pudessem ingressar no estádio com o fardamento da entidade à qual pertencessem. Como se roupas determinassem o grau de violência das pessoas. Mas não percamos tempo nesse ponto, que só serviu para criar a segregação da torcida dentro do estádio e não resolveu absolutamente nada. Isso porque em caso de criar algum incidente violento e ter sua carteirinha suspensa, o cidadão em questão poderia continuar freqüentando normalmente os campos, bastando abrir mão da roupa da torcida e entrar por todos os outros acessos do estádio, destinados ao torcedor dito comum. Parece tiração de sarro, mas são as autoridades do esporte “combatendo” a violência.

De toda forma, o tal cadastro da federação, que concedia uma carteirinha ao membro de torcida que se prestasse ao fichamento, reúne cerca de 22 mil nomes, uma boa base de pesquisa para identificar violentos que causassem eventuais distúrbios. Idéia muito propagandeada, matéria na Folha de S. Paulo dessa semana revelou que a lista só foi consultada 3, 4, no máximo 10 vezes. O tenente-coronel Hervando Velozo, que coordena o policiamento dos jogos, disse por sua vez que nunca consultou tal fonte.

Quer dizer, se fazem um cadastro e admitem que não o usam para nada, por que fazer outro, de abrangência nacional ainda por cima? O governo federal, e nenhum dos envolvidos nas discussões, não fez tal observação, o que mostra o desconhecimento que nossas autoridades possuem da realidade das arquibancadas. O projeto apresentado até tem seus pontos interessantes, mas o único que realmente se destaca é a criminalização do cambismo, prática realmente odiada pelos torcedores. Os outros podem ser abrangidos pelas leis existentes ou pelos próprios regulamentos de campeonatos, como no caso da manipulação de resultados. Se bem que o próprio cambismo pode ser enquadrado como crime contra a economia popular, previsto simplesmente no Código de Defesa do Consumidor.

De quebra, São Paulo escala para comandar tal processo um promotor que já se mostrou uma triste cópia do seu antecessor no palanque do combate à violência. O nome dele é Paulo Castilho. O nome dele era Fernando Capez. O segundo ganhou espaço ilimitado na mídia, alavancou sua carreira, fez fama na vida pública, se elegeu para cargos políticos e não resolveu nada. O primeiro parece ser mais do mesmo, pois já ficou amiguinho dos cartolas (os mesmos que criam climas bélicos antes dos grandes jogos, entre outras práticas bárbaras) e não se cansa de sugerir medidas claramente ultrapassadas e de eficácia desmentida pelos próprios fatos.

Falando em cartolas, como vamos mesmo erradicar a violência das praças esportivas se quem comandará o processo, e comanda os clubes, é a mesma gente que permitiu que as coisas chegassem a tais níveis? O presidente do Santos, Marcelo Teixeira, foi flagrado fazendo gestos, xingando e atirando objetos nos torcedores (dos lugares Vips, ou seja, nada de organizados) do Corinthians na partida citada. O do Corinthians, Andrés Sanchez, insuflou um clima de rixa desnecessária no São Paulo x Timão deste ano e vimos no que deu.

As relações entre as pessoas das altas esferas de poder metidas na discussão já são clara demonstração do jogo de cena que estamos presenciando. Políticos, promotores, policiais, delegados, cartolas são os grandes responsáveis pelo lamentável quadro da civilidade esportiva e são os mesmos escalados para promover a paz. Por isso que todas as medidas atingem e afetam somente o torcedor, inclusive aquele pacífico que nunca se envolveu em nada. Mexer na estrutura que é bom, nem pensar. Por isso foi limado do Estatuto do Torcedor, primeira lei assinada por Lula, o artigo que responsabilizava os dirigentes por ocorrências e ilicitudes envolvendo suas entidades. Malandro é o gato, que já nasce de bigode...

Na Inglaterra, exemplo repetido aos milhares, a violência foi combatida com medidas estruturais e estruturantes, isto é, que visavam primeiro mudar a realidade local, para depois exigir contrapartidas dos torcedores, pois concluíram que “o torcedor tratado como animal reage como animal”, como contou o pesquisador Oliver Seitz, que estuda questões relacionadas ao futebol na Universidade de Liverpool.

O relatório Taylor, famosíssimo trabalho de um lorde inglês tido como ponto de partida da efetiva mudança de realidade britânica, vive sendo citado pelos nossos cartolas, quando vêm com a cantilena de que agora a brincadeira acabou. Pois deveriam saber que o mesmo lorde Taylor rifou a idéia de Margareth Thatcher (quem mais?) de implantar um cadastramento semelhante. Disse que a questão dos estádios precisava ser focada na segurança, não na violência. Belo conceito a ser aprendido por aqui, onde só se ataca superficialmente os problemas, de todos os segmentos na verdade, e não no fundo, na origem.

Além do mais, dentre tantos documentos que já permitem nossa identificação perante o Estado, por que mais um, que só viria a burocratizar a simples e inocente (sim, acreditem) ida ao estádio? Não pensaram eles que isso certamente diminuirá o público dos jogos, pois nem todos aceitarão passar por isso, ainda mais quando se tratar daquele sobrinho de oito anos que nunca foi ao jogo? Ou de turistas que queiram conhecer o Maracanã? “Mas aí é só ter o bom senso de deixar entrar”, disse Lula. Quer dizer, a norma já começaria acompanhada do jeitinho brasileiro, que desta vez estaria até previsto em lei, uma grande inovação, reconheçamos.

Enfim, estamos diante de nova cortina de fumaça, que visa somente eximir de culpa e tirar do foco das críticas os mesmos incompetentes de sempre, que na falta de satisfações a oferecer à sociedade aparecem com ‘novas’ idéias de erradicação da violência. Pois enquanto dizem isso, se coadunam com os mesmos que chamam de marginais, concedendo ingressos e demais privilégios a quem dizem enfrentar.

A discussão continua, mas já aviso, sem medo de errar, que por enquanto nada mudará.

Texto também publicado no Correio da Cidadania.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Polícia para quem precisa!

Por Gabriel Brito

É assustadora a crescente onda de violência envolvendo a Polícia Militar no futebol brasileiro. Somente nos últimos três meses, houve ao menos um notório incidente em cada um deles. Isso em plena época em que se vende a ilusão da Copa de 2014 ao público mundial e na qual cartolas bloqueiam com todas as forças quaisquer iniciativas que ousem ir na direção oposta a seus interesses – vide os bem sucedidos lobbies de Ricardo Teixeira e Carlos Nuzman para evitar a instauração de CPI sobre CBF e COB.

Dando o exemplo de como tem sido o combate à violência no futebol, todos os episódios referidos terminaram sem punição. Em dezembro de 2008, no caríssimo e desnecessário Bezerrão (que custou 55 milhões de reais ao orçamento da cidade-satélite de Gama), um policial foi desferir uma coronhada em um são-paulino, a arma disparou e o tiro atingiu a nuca do torcedor, que morreu na hora; em fevereiro, na saída de Corinthians e São Paulo, uma explosão ainda não decifrada causou tumulto entre policiais – que, para controlar a situação, soltaram mais bombas – e corintianos, que terminou com 49 feridos; por fim, no último final de semana, PMs baianos praticaram agressões covardes contra torcedores do Fluminense de Feira de Santana.

Em todos os casos, as reações daqueles que deveriam acalmar e proteger foi de total agressividade e instinto de batalha, para dizer o mínimo; em suma, o torcedor é visto como inimigo a ser combatido. Em todos, a polícia tenta se eximir de culpa, jogando-a para o outro lado, o que é lamentavelmente acobertado ou ignorado pela grande mídia, que salvo honrosas exceções só se presta a ouvir o lado das autoridades – as mesmas que deixaram o futebol brasileira falido, órfão de seus craques e violento.

Está mais do que provado que nossos policiais não têm o menor preparo para lidar com o público numa posição autêntica de servidor público, até porque essa concepção de policial já se descaracterizou completamente. Fora isso, tampouco possuem aptidão para controlar e contornar situações de tensão, pois estão preparados para revidar, e não tranqüilizar. É assim que se vive o dia-a-dia da profissão, o que já explica muito.

No entanto, é ainda mais preocupante, em um momento no qual já não se suporta bater nas mesmas teclas do tema da violência, que a própria corporação trate de ocultar a realidade e evite uma autocrítica. No caso do clássico paulista, aconteceu algo escandaloso já nos dias seguintes ao tumulto que sabe-se lá como foi pouco repercutido: o 34º. DP da capital preparou um parecer que incriminava totalmente os torcedores corintianos, sendo que tal ‘investigação’ foi prontamente desqualificada pelo próprio coronel que chefiou a segurança do clássico. Quer dizer, a PM já aprontava mais uma armação que mancha o nome da própria instituição, em moldes mais moderados, é verdade, se comparados às suas atrocidades nas periferias das cidades. Mas como confiar a resolução dessa endemia a autoridades que promovem tão escancarada falsificação da verdade?

De toda forma, fica difícil esperar que se resolva o problema da violência quando as próprias autoridades dão seguidos exemplos de descontrole e posterior descaso em investigações que ajudariam a moralizar um pouco o debate. Aí chovem paliativos de dirigentes e promotores incapazes de propiciar soluções verdadeiras, que terminam em mais proibições, restrições, segregações, como já se vê em São Paulo há tempos, sem qualquer efetividade.

A nova baboseira da praça é a de querer limitar ainda mais, ou vetar diretamente, o acesso do público visitante. Além de desrespeito ao básico direito de ir e vir, é uma terrível confissão de incapacidade da nossa sociedade em conviver minimamente bem com o contrário, que no caso é apenas alguém que prefere outro time. Se admitimos isso, não estamos em condições de nos considerar um país civilizado, simples assim.

São Paulo já vive um estado de exceção em seu futebol que nenhum outro local do país vive, e é exatamente a praça que concentra a maior quantidade de episódios de violência. Bandeiras, instrumentos, jornal, guarda-chuva, tudo é proibido em São Paulo, e, de quebra, os preços e horários dos jogos são cada vez mais acintosos. Natural que com esse coquetel, em meio a uma cidade já caótica e brutal, os estádios paulistas virem um barril de pólvora.

No resto do país, é verdade, a coisa não anda lá muito melhor. Pode-se lembrar também do episódio envolvendo a PM de Recife e os jogadores do Botafogo, agredidos e ofendidos de forma absurda no meio do campo só porque um de seus atletas se envolvera em confusão de jogo e trocou insultos com um torcedor. Ainda por cima a Câmara dos Vereadores local concedeu medalha aos policiais pelo trabalho, em patética demonstração do mais barato bairrismo.

Por fim, e o mais importante, é inacreditável como não se investe e se utiliza mais o trabalho de inteligência da polícia. Ao contrário do que se pensa, não são necessariamente antônimos. Conhecer com antecedência o que fazem os violentos e seus pontos de encontro pelas ruas é primordial para que se anulem suas ações. Há condições de se fazer tal trabalho com eficiência e aplicar punições concretas, já existentes em lei. Muito se cobra uma legislação específica, mas já existem penas previstas para assassinatos (ou tentativas), lesões corporais, depredação do patrimônio, dano moral etc.

O futebol já está cansado de autoridades que prometem soluções definitivas, anunciam grandes punições a caminho, mas terminam se envolvendo na mesma rede de facilidades trazidas pela notoriedade pública, holofotes, trânsito nos bastidores, enfim, todo o circo que só serve para alavancar carreiras e egos pessoais. Enquanto todos os desequilíbrios sociais não forem resolvidos, não será o futebol que erradicará a violência e a intolerância de nosso convívio, mas prevenir ações anunciadas de vandalismo e posteriormente cumprir a lei ajudaria muito a mantê-lo vivo sem que seja descaracterizado.


Gabriel Brito é jornalista.
Este texto também está publicado no Correio da Cidadania (http://www.correiocidadania.com.br/content/view/3016/9/)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Uma campanha que vale a pena - e cada vez mais urgente



O blog Casa do Torcedor em parceria com o Terreiro do Galo lança essa nobilíssima campanha, à qual o Futebólatras adere imediatamente.

Espero que o maior número de pessoas com voz e alcance na mídia possa fazer essa proposta repercutir o suficiente pra se tornar realidade.

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Casa do Torcedor e Terreiro do Galo lançam a Campanha “Paz nos Estádios - Blogueiros unidos em busca de Justiça”

Um atleticano baleado em um ponto de ônibus em Belo Horizonte. Mais de 40 corintianos feridos em um confronto com a Polícia Militar no Morumbi. Brigas e tiroteio entre flamenguistas, botafoguenses e policiais nas proximidades do Maracanã. E outras confusões em estádios de futebol por todo o país.

Esse foi o saldo de um domingo que não pode ser esquecido na história do futebol brasileiro. Apesar de terem chocado todos nós, esses acontecimentos são, infelizmente, comuns.

Quando o jovem Márcio Gasparim, de 16 anos, foi morto a pauladas em uma verdadeira batalha campal no Pacaembu em 1995, já esperávamos que fossem tomadas atitudes que diminuíssem a violência nos estádios. Não foram.

As confusões em estádios ou fora deles não cessaram. E a cada uma, fazemos uma pergunta que explica por que elas acontecem: Por que ninguém é punido? Nem torcedores vândalos, nem policiais truculentos e, muito menos, cartolas que incitam a violência inflamando as torcidas, são punidos.

A experiência do passado nos torna céticos quanto às atitudes que as autoridades devem tomar. Mas isso não deve impedir nossa mobilização em busca da paz nos estádios.

A Casa do Torcedor e o blog Terreiro do Galo, então, acabam de lançar a Campanha “Paz nos Estádios – Blogueiros Unidos em Busca de Justiça”. Queremos com ela unir blogs, jornalistas e demais pessoas que têm o mesmo ideal.

Nosso objetivo é pressionar as autoridades a aprovarem uma legislação específica que previna e puna a violência nos estádios e seus arredores. Uma lei que puna com rigor os responsáveis por atos de violência no futebol, sejam eles torcedores, policiais ou até dirigentes que incitem a barbárie.

Temos certeza que um dispositivo legal construído a partir da ampla discussão entre todas as pessoas que estejam ligadas de alguma maneira ao futebol é a melhor maneira de diminuir a violência no esporte e, assim, devolver ao torcedor a certeza de voltar são e salvo para casa após o simples ato de ver seu time jogar.

Faça parte dessa campanha! Clique na imagem e capture o banner. Pedimos a todos que aderirem a essa mobilização que enviem um e-mail para paznosestadios@gmail.com, dando-nos o nome e link para o seu blog. Quanto mais blogueiros se unirem nesta nobre causa, mais força teremos para exigir uma resposta dos responsáveis pela segurança do torcedor brasileiro. Ainda, a utilização deste texto para apresentar o projeto aos seus leitores poderá ser uma ótima estratégia para melhor informá-los da campanha.

Faça parte dessa grande corrente, independentemente das cores que seu clube veste. Contamos com a participação de todos os blogueiros apaixonados pelo futebol e, principalmente, apaixonados pela vida.

Atenciosamente,

Arnaldo Gonçalves – Casa do Torcedor

Christian Munaier – Terreiro do Galo

Arte: FredKONG

Censura no Nordeste


Por Kadj Oman, do www.vailateral.wordpress.com

A polícia brasileira, definitivamente, ainda faz questão de nos lembrar de 1964.

Aos amigos da Resistência Coral, não desistam. Liberdade de expressão é um direito básico de todo cidadão, e uma faixa pró-Palestina é tão política quanto um banner da Coca-Cola.

Se pode um, pode outro. Não tem nem o que discutir.

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Do site da Resistência Coral:

No último sábado (14/01/2009), durante a partida Ferroviário x Maranguape no estádio Plácido Castelo (Castelão), valendo pela fase semi-final do 1° turno do Campeonato Cearense de Futebol, aconteceu um fato condenável. A torcida organizada Resistência Coral mais uma vez teve um de seus materiais censurados. Nesta ocasião tratou-se de uma bandeira que contém os seguintes dizeres “Resistência Palestina”.

Antes do início da partida, a torcida organizada estendeu ao longo das arquibancadas algumas de suas faixas e bandeiras, como costumeiramente faz. No decorrer do primeiro tempo do jogo policiais pertencentes ao Batalhão de Choque aproximaram-se dos membros da Resistência Coral e, para o espanto destes e de outros torcedores corais, deram o aviso/a ordem de que a referida bandeira não poderia ficar exposta; estava proibida! Buscando entender o motivo da proibição os membros da Resistência Coral ouviram do capitão da Polícia Militar que a ordem tinha partido da administração do estádio e que a mesma alegava que a bandeira tratava-se de uma manifestação política e, por isto, não era permitida. Pasmos, os membros da torcida ainda argumentaram contra esta arbitrariedade, mas foi em vão.

Esta não é a primeira vez que a Resistência Coral foi censurada. Em mais de uma ocasião a faixa com os dizeres “Nem guerra entre torcidas, nem paz entre classes” teve que ser retirada a mando do policiamento presente nos estádios. Em 2006, na primeira vez que isto ocorreu, a polícia chegou também a rasgar com um punhal uma bandeira da torcida que continha o símbolo da foice e martelo, afirmando que “não permitirá mais referências ao comunismo nas laterais do campo”.

No início de 2008 membros da Resistência Coral impetraram um mandado de segurança preventivo com pedido de liminar, a fim de combater tais arbitrariedades e evitar futuras repressões, buscando o direito respaldado pela Constituição Federal à livre manifestação de pensamento. O processo tramita no Tribunal de Justiça do Estado do Ceará.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Torcer: uma missão para bravos

por Gabriel Brito

Abro este texto avisando que o conteúdo que se segue é um relato jornalístico-pessoal, o que na verdade é uma simbiose inevitável, mas que admitida pode conferir menos leviandade ao que se subscreve. Trata-se de uma tentativa de analisar e tirar conclusões dos acontecimentos registrados no Morumbi, à saída do clássico entre São Paulo e Corinthians, mais especificamente da nova tarde de violência e estupidez no país da Copa de 2014.

O tema está em todas as manchetes desta segunda, reverbera na cidade toda e será abordado (e investigado?) à exaustão. Mesmo assim, creio agregar algo ao debate relatando minha experiência, ao lado de meu irmão, na epopéia a que nos propusemos viver neste domingo.

É realmente inevitável dissociar os fatos ao final do jogo com o clima criado, por todas as correntes, durante a semana. No meu ponto de vista, o São Paulo FC tem a mais relativa das culpas. Não avisou com grande antecedência que haveria a controvertida, mas legítima, divisão de torcidas em 90% a 10% e estranhamente construiu o setor dos visitantes ao lado da arquibancada onde se localiza a Independente, isto é, os torcedores tidos como mais temíveis. Por que não fazer o visitante no setor amarelo, sempre o menos povoado pelos são paulinos e com 100 metros de distância para suas organizadas?

Por sua vez, o Corinthians, em nova atitude demagógica de sua diretoria, esperneou e direcionou expressões como ‘egoísta’, ‘pequeno’ e ‘irresponsável’ aos seus pares tricolores. Digo assim, pois não é a primeira vez que Andrés Sanchez ‘joga para a torcida’. Ao lado de seu departamento de marketing, vem incorrendo em tal expediente desde o rebaixamento do clube, quando precisou limpar sua barra em relação à gestão anterior e levantar fundos para bancar a monumental dívida com que a quadrilha Dualib, da qual era parte, brindou o alvinegro. E para isso não foram poucas as campanhas publicitárias a exaltar o amor que o corintiano (e mais ninguém aparentemente) tem pelo seu time. Em suma, eles fizeram a dívida, mas como somos nós, a torcida, que pagaremos, é preciso adular-nos e fazer-nos esquecer todas as impropriedades cometidas ao longo dos últimos sei lá quantos anos (só crianças acham que não acontecia nada antes da era MSI). Por isso só a fiel não abandona, só a fiel é roxa pelo time e só a fiel comparece ao estádio na pior. Sem fazer comparações com outras torcidas, são verdades incontestáveis, mas para quem sempre seguiu o time não são novidades e pegam mal em momentos como esse, podendo soar como certo oportunismo também.

Outro capítulo à parte coube à imprensa. Aventou o clima de guerra, repercutindo em excesso declarações tolas da cartolagem, preferindo deixar os esquemas dos professores Mano e Muricy em segundo plano. Tratou a iminência dos distúrbios como alegoria, mas seu papel mais pernicioso na história só começaria a ser protagonizado no anoitecer do domingo e principalmente nas páginas de segunda-feira. Sendo o que resta de jornalismo esportivo compromissado com o seu público, a ESPN Brasil esteve em cima da pinta e logo abordou o assunto de forma realista, expondo que o que ocorrera à saída era culpa, e muita, da PM. Colocou seus repórteres para circular, falar com torcedores (sim, eles também podem ser entrevistados) e, aí sim, colher a posição oficial, das autoridades. Tendo praticado jornalismo, ficou fácil auferir que a responsabilidade da PM na confusão que vitimou dezenas de espectadores (não gado) era no mínimo razoável, o que arrastou alguns outros veículos a mudarem um pouco seu viés chapa-branca, de Diário Oficial da União, na hora de contar os fatos.

Entretanto, Arnaldo Ribeiro, da Placar e ESPN Brasil, foi certeiro. “Nós, jornalistas, devemos também mudar um pouco, acompanhar o que passam esses torcedores nas saídas de jogo, pois realmente não vivemos isso”. Não é preciso dizer muito mais. Quem lê a cobertura de tais acontecimentos sabe que nossa imprensa só sabe ouvir fontes oficiais (policiais, dirigentes e promotores, que, aliás, são a mais nova categoria que se vincula ao futebol) e a partir disso tira suas conclusões de gaveta. “Os marginais, sempre os marginais”, “Ah, essas organizadas”, “Ui, não vá nunca mais ao estádio”, enfim, nada se discute a fundo, não se cobra, permanentemente, punição aos culpados quando um verdadeiro crime ocorre e se estigmatiza completamente o torcedor que ainda mantém sua paixão e faz questão de exercê-la. O jornalista Flavio Prado, que trabalha na TV aberta, se referiu aos cerca de 41 mil pagantes do clássico do paulistão do ano passado como ‘imbecis’. Isso pelo simples fato de terem ido ao Morumbi naquela tarde de Adriano em campo e do único clássico entre ambos em 2008, pois “quem vai ao estádio hoje em dia é isso: imbecil ou marginal. Quem não é de organizada, essa turma que só vai pra brigar, é acobertador de marginal”. Uma volta aos bancos da faculdade seria salutar, pois lhes faria lembrar que um mandamento mais do que básico, obrigatório, da profissão é apurar fatos e versões para além das fontes oficiais e oficiosas.

No entanto, tal preceito não deve constar na redação do Diário de São Paulo, para dar um exemplo. Pois o que lá se lê é o supradito, é a simbolização do trabalho midiático em tais circunstâncias. Apenas fontes oficiais. E mais: ouviram um torcedor alvinegro – anônimo – que imputou a causa da briga aos Gaviões e um morador do bairro que acusou os torcedores de promover um arrastão. E a partir desta altura do texto, torna-se útil ter estado lá.

Fiquei no setor ‘dos 90 reais’, isto é, um pouco mais vazio que o outro corralito alvinegro, logo, mais cômodo. Esperamos os tais 40 minutos para sair, calmamente. Um pouco antes de escurecer, começou a chover fino, o que irritou o pessoal ali presente. Então, começamos a pedir liberação para deixar a arquibancada. No que fomos atendidos pronta e tranquilamente. Comecei a descer a rampa, cheguei à saída e lá já me deparei com os ônibus do comboio de nossa torcida estacionados ao lado do estádio, no contorno da sede social, repleta de policiais, como não deixaria de ser. De repente, ouve-se um estouro, que naquele momento não causou grande preocupação em quem já havia saído. Entrei ao lado do meu irmão e mais um amigo no ônibus, a esperar pela partida. O clima era ameno e parecia que ainda tardaríamos um pouquinho a sair. Mais alguns minutos, ouvem-se mais uns 3 ou 4 estouros. Outro curto lapso de tempo e começam a voltar para os ônibus corintianos, aos montes, manquitolando, queixando-se de dores, quase todos nas pernas. Pensamos: “Bom, enfim, o pau comeu”. Pensávamos que era algo do tipo Gaviões x Polícia mesmo, e por alguma razão gratuita. E a partir daí, o trato dos oficiais mudou: começaram a ordenar aos motoristas que ligassem os ônibus e a tocar os torcedores para dentro deles, muitos ainda sem localizar o veículo que os trouxera. Uma clara e até ali inexplicável mudança de comportamento. E eu já estava contentíssimo de ter visto o esquema de escolta da caravana ter corrido bem na ida, quando saímos do Bom Retiro.

Empreendemos a saída do Morumbi pela Giovanni Gronchi, por onde também chegáramos. Sem explicação, fomos parados ali novamente, esperando outra meia hora, aproximadamente, para retomar o trajeto de volta para a quadra dos Gaviões, que de acordo com a própria PM é a melhor maneira de ir a jogos nessas circunstâncias de parcela minoritária do público. Eu e meu irmão tomamos a decisão de ir com os Gaviões por conta própria, pois já havíamos calculado que, ainda que descamisados, indo sozinhos e pelos trajetos normais correríamos risco de tomar algum susto, para dizer o mínimo. E como era evidente que a caravana das organizadas seria escoltada até a medula, concluímos ser mais seguro ir ao Morumbi com eles. Após essa nova espera, finalmente, por volta de 8 da noite, começamos de fato a ir embora. Contornamos o terminal João Dias, entramos na Marginal Pinheiros e nos mandamos – ainda houve tempo para uma pedrada na janela de nosso veículo, sem maiores consequências.

Portanto, que Gaviões e Polícia tenham se pegado é praticamente uma certeza, resta saber os motivos. A gaguejante entrevista do coronel Velozo foi insegura, seca e contraditória. Como pode ser visto no Blog Vai Lateral, as explicações não se sustentam.

“A torcida do Corinthians partiu pra cima da patrulha da PM, composta por apenas 5 policiais e 1 tenente, e esta revidou”. Eram, segundo o comandante, cerca de 500 torcedores. Primeiro de tudo, suspeita a conta de apenas 5 policiais para fazer a evacuação da torcida. (observação de quem foi ao jogo: eram muito mais) Depois, estranho que 500 torcedores tenham fugido de 5 policiais, mesmo estando estes atirando “apenas 3 bombas de efeito moral”, conta o blog, que ainda expõe o relato de outro torcedor.

“Começou a chover muito, a torcida decidiu se abrigar da chuva nos corredores embaixo da arquibancada e começou a aglomerar a torcida inteira, que chegou até perto dos portões. Aí entra a Tropa de Choque, eles nem perguntaram o que acontecia, viram a massa e já começaram a lançar bombas, balas de borracha, dar borrachada. E o resultado foi que ficaram mais de 3 mil pessoas espremidas num corredor, engolindo gás de pimenta. A PM começou a recuar todo mundo num blocão esmagador, era um verdadeiro rolo compressor humano se esmagando e entre os torcedores se ouvia os gritos de mulheres e até crianças sendo esmagadas, foi uma cena realmente chocante. E assim foi prosseguindo até que a massa espremida foi caindo de costas pela única saída de visitantes. Foi feito um mutirão para ir resgatando as pessoas dali do meio e o resultado é que tinha até mulher grávida desmaiada e entre os muitos feridos, vários com fraturas expostas. E como sempre as organizadas foram as culpadas e a PM está de parabéns”, conta o torcedor, não identificado mas que lá deixou um depoimento.

A versão oficial apresentada foi contradita pelo mesmo Velozo, ao final da improvisada coletiva. “Houve um estouro no estacionamento, os torcedores vieram em nossa direção e a partir disso nos defendemos”. Pois é, fica claro que não se sabia a origem do estouro, nem por parte dos policiais, nem dos torcedores. E mesmo assim o comandante admitiu (na frente de todas as câmeras!) que a reação natural e inicial foi a de revidar, partir para cima de volta, sem nem saber de quem era a culpa, já que até o fim da conversa com os repórteres o policial não afirmou de onde partira esse primeiro estouro. Portanto, a versão de ataque dos torcedores corintianos prova-se falaciosa, ao menos confrontando todas as versões apresentadas, inclusive a oficial. E os instintos de violência da PM ficam novamente desnudados. A propósito, alguém chegou a ver as matérias de capa de janeiro das revistas Caros Amigos e Le Monde Diplomatique? Pois é, lá fica exposto o quão ilibada e realmente irretorquível tem sido a conduta de nossas polícias, ficando fácil compreender o porquê de nossa grande mídia se satisfazer tão facilmente com os pareceres das autoridades.

Quanto ao arrastão, é uma rotunda inverdade. Até porque mal havia ‘o que arrastar’. Cercados que estávamos por policiais, que eram muitos como já dito, não havia a menor possibilidade de se empreender uma ação do tipo. Pelo fato de não haver espaço físico sobrando, de lá estar um contingente enorme de PMs e de nem sequer existir algum ‘alvo’ disponível para vitimizar, se assim decidissem os presumidos marginais.

Antes mesmo de chegar à sede da torcida alvinegra, recebi pencas de ligações de gente que queria saber como estavam as coisas. Meu pai, do Rio de Janeiro, começou a acompanhar o noticiário e já ia nos informando de tudo. E já àquela altura ele me dissera: “O PVC tá dizendo que a culpa é da Polícia”. Bom, a novidade em questão era ver gente da imprensa rapidamente apontando o dedo para o lado oficial da história, não o culpado em si. Pareceu uma luz no fim do túnel ouvir isso, talvez dessa vez a repercussão fosse outra, pensei. Hoje, como não poderia deixar de ser, tratei de acompanhar a repercussão. Parte da mídia de fato se sensibilizou com o lado do torcedor (quem sabe a ESPN não impõe um agenda-setting ‘do bem’), mas outra parte insiste em sua crença inabalável nas autoridades e instituições oficiais de nossa sociedade.

Como foi o caso do citado Diário de S. Paulo. Confesso que a partir disso perdi a vontade de continuar folheando outros jornais, que adoram destacar em fotos colossais as partes trágicas do jogo. “Mas é importante falar disso, é de claro interesse social”, responderão todos. Nenhum imbecil discorda. No entanto, tenho dificuldades em acreditar na vontade de resolver nossas mazelas sociais por parte de um veículo de mídia que na mesma capa coloca uma chamada para matéria sobre o casal recordista em tempo de beijo debaixo d’água e que dedica páginas inteiras a ‘celebridades’ que ganham a vida exibindo peito, bundas e abrindo pernas, inclusive em público. Fico aqui concatenando pensamentos e me sinto mortificado de saber que minha pobre cabecinha é incapaz de compreender o interesse social de tais questões.

Pensando bem, é tudo previsível mesmo, parte do circo. Pois como a grande imprensa tem abordado a crise econômica, senão pelo ponto de vista dos empresários, isto é, de seus causadores, que assim ficam livres para expressar quase sem contraponto suas versões dos fatos, sustentando assim a onda de demissões que já assola o país? E no Paraisópolis, como é a cobertura, senão um mero diariozinho de acontecimentos, evitando-se cuidadosamente entrar em explicações sociológicas dos fatos? E em Gaza, como foi a abordagem, senão pelo massacrante ponto de vista israelense, ignorando o fato de a fundação do Estado de Israel ser um ato de ocupação em si desde os primórdios e também omitindo o fato de que há muito tempo o Hamas aceita o direito a existir do Estado israelense e negociar de acordo com as fronteiras de 1967? Por sorte, saí há pouco tempo da faculdade, o que me faz ter fresquinho na mente a premissa inegociável de que o ‘jornalismo é, antes de tudo, uma função social’. Pois se com assuntos tão mais sérios que o futebol a mídia já esbanja sua (ir)responsabilidade social, o que pensar de uma mera partidinha de Campeonato Paulista? O jornalismo de vassalagem está em voga há muito tempo e não somos nós corintianos que estamos “desmascarando” alguma coisa.

O balanço que se pode fazer, obviamente, é negativo. Mas ao mesmo tempo reflito e vejo que não houve novidades. Ainda mais sendo visitante. Quem entende do que falo, sabe: o tratamento, Brasil afora, de torcidas forasteiras é absurdo, violentíssimo, provocador e humilhante. Fui ao Rio de Janeiro em 2007 ver um jogo contra o Flamengo e não deu outra. Fomos esculachados pela PM carioca, cujo linguajar é inacreditável, do começo ao final do jogo. Na entrada, fomos obrigados a entrar correndo, enquanto os ‘servidores públicos’ (um teórico sinônimo de polícia) giravam seus cassetetes para apressar a entrada, se assim pode ser dito. Lá dentro do Maraca, na hora da saída, ficamos esperando o momento da liberação, enquanto os oficiais tentavam a todo instante fustigar torcedores, através de xingamentos e ordens brutais, como proibição de ir ao banheiro. Isso até conseguirem e poderem se comprazer em conjunto espancando alguém, coisa que fizeram e testemunhei. Em outra visita ao Rio, meu irmão foi ver a semifinal da Copa do Brasil no moderníssimo, dispendioso e superfaturado Engenhão, de onde voltou com escoriação no braço, pois levou uma cacetada quando deixava o banheiro, o que aconteceu com muitos e muitos outros torcedores. Aliás, um vídeo-denúncia chegou a circular no YouTube, com duração de 8 minutos, com diversas atitudes dos oficiais registradas. Houve outras filmagens, mas muitas das pessoas que as fizeram simplesmente tiveram suas máquinas digitais ou celulares tomados e destruídos pela PM carioca. Além de meu irmão, ouvi esse mesmo relato de outras pessoas presentes.

Portanto, o que ocorreu no Morumbi foi apenas mais uma dose da mesma mistura que vem matando o futebol brasileiro nas arquibancadas. Polícia despreparado e/ou violenta, torcidas nem sempre dispostas a cooperar com a ordem e uma mídia ávida por relatar tragédias – basta ver que quase nada se falou da partida, com ou sem razão; cada qual com sua abordagem, mas não se falou. A grande diferença é que dessa vez ficou complicadíssimo lamber a bota da PM e referendar de primeira sua versão. Que sirva para que a mídia MUDE sua atual abordagem do futebol. Que pare de ignorar os inumeráveis sofrimentos do torcedor, de apenas noticiar os crimes relacionados ao futebol sem cobrar permanentemente por suas resoluções, de fingir que não percebe a forçadíssima elitização do nosso esporte querido, de se omitir com os horários cada vez mais pornográficos dos jogos. Aliás, como nessa sociedade todos os processos são impostos de cima para baixo, sugiro que essa elitização do jogo venha de cima também. Ou seja, troquem quem colocou nossos clubes e federações em penúria completa por gente qualificada, estudada em gestão, em marketing, que apresente algum estudo de mercado que justifique qualquer aumento de preços nos ingressos, que não podem continuar a preços tão irrealistas, muito menos quando toda a estrutura em volta permanece igual. Elitizem a gestão do futebol primeiro! Porque me parece impossível modernizar alguma coisa exatamente com as mesmas pessoas que passaram (só no pretérito?) anos sugando, roubando e arruinando nossas entidades esportivas. Nesse caso, a elitização, vejam só, parte de baixo, isto é, primeiro atinge o torcedor, depois.... bem, depois fica por isso mesmo, como tão bem sabemos.